Geraldo Mazzei

GERALDO MAZZEI

Geraldo Mazzei nasceu no dia 04 de julho de 1934, filho de Celidônio Mazzei e Nathalina Casarin Mazzei. Celidônio era um imigrante italiano que se fixou em Ubá, na Zona da Mata Mineira, e é conhecido pelo pioneirismo na fotografia na região. Por volta dos nove anos, Geraldo Mazzei já frequentava o laboratório de fotografia Cine Foto Mazzei para ajudar o pai e o tio Guerino Casarim, com quem também aprendeu muito. 

“Eu ficava observando meu tio retocando o negativo e à noite, depois que ele saía do estúdio, eu entrava na câmera escura e começava a imprimir as fotos no papel. Depois adquiri uma máquina e passei a fotografar as pessoas. Revelava o filme e vendia aquelas fotos, descobrindo assim uma maneira de ganhar dinheiro. Naquela época o negativo era no vidro. “- Geraldo Mazzei ao jornalista Levindo Barros, em entrevista para o jornal Gazeta Regional, de 03 de Agosto de 2002. 

Geraldo Mazzei. Fotografia cedida pelos filhos Yhorrana e Sthéfano.

Quando tinha aproximadamente 13 anos, teve seu primeiro emprego. Ele trabalhava como office boy, fazendo entregas e outros serviços para uma loja na Rua Matilde Balbi, em Ubá. 

 

Por volta dos 16 anos, Geraldo se muda para Juiz de Fora para trabalhar com o irmão mais velho, José Mazzei, que tinha um estúdio fotográfico chamado Foto Mazzei. Trabalhou com ele até aproximadamente os seus 18 anos, quando retornou a Ubá para servir ao Tiro de Guerra. Em 1952, ao retornar para Ubá, recebeu de presente do pai uma câmera de cinema para começar a registrar acontecimentos da cidade. Sua primeira experiência com a câmera foi registrar o carnaval da cidade. O seu retorno a Ubá marca o início de sua carreira como fotógrafo ao lado do pai. Geraldo trabalhou com Celidônio Mazzei por toda a vida, até o falecimento dele, em 1980, aos 92 anos. Neste momento,  Geraldo, com seus 46 anos, abre seu próprio estúdio fotográfico.

 

“Ele também era filmador, só que ele gostava muito mais de ser retratista.”

– Sthéfano em conversa com o projeto Minas é Cinema, 2026)

A paixão pelo laboratório fotográfico

Geraldo gostava muito de trabalhar no laboratório. Os filhos Yhorrana e Sthéfano, desde crianças, acompanhavam esse processo com encantamento e se lembram das etapas.

“Eu lembro nitidamente que ele gostava mais de fotografar utilizando filme Fuji, mas o papel tinha que ser Kodak. E ele fazia as químicas dele também. Tinha um laboratório e eu lembro até hoje o cheiro forte daquelas químicas, inclusive isso infelizmente no final da vida dele, prejudicou muito sua saúde.

[…] Ele teve pneumonia, muito em decorrência dessas químicas. Foram décadas fazendo isso. Ele mesmo chegava com os galões e ele ia fazendo as tonalidades que queria.”

– Sthéfano em conversa com o projeto Minas é Cinema, 2026.

Filhos Yhorrana e Sthéfano, fotografia de Geraldo Mazzei.

Diretor Social no Ubá Tênis Clube

Em 1955, além do trabalho no Cine Foto Mazzei, localizado na Rua São José nº 228, no centro de Ubá, Geraldo passou a atuar como diretor social no Ubá Tênis Clube e estava à frente da realização de uma série de eventos como: carnavais, concursos de beleza como “As Mais Elegantes” e “Miss Objetiva”

Além de participar da organização, Geraldo também fotografava. Já no final da década de 1960, Geraldo foi responsável pela montagem da primeira boate de Ubá, no segundo andar do Ubá Tênis Clube, que se chamava “Psiu”.

Fonte: jornal Cidade de Ubá, 01 de junho de 1969.

A chegada da televisão a Ubá

Geraldo Mazzei participou e registrou a chegada da primeira imagem de televisão a Ubá. Pelo relato dos filhos, documentada no dia 21 de abril de 1958, através da TV Rio. A transmissão foi recebida através de uma antena instalada em uma região conhecida como Serra do Divino.

Em uma noite, passeando pela Praça Guido Marliére vi um grupo de pessoas olhando para o morro do cruzeiro onde hoje encontra-se o depósito da COPASA, perguntei o que acontecia lá em cima e responderam-me que era o Danilo tentando capturar imagens de TV. Corri até o Foto Mazzei, apanhei os equipamentos para fotografar o que seria a primeira imagem de TV de Ubá e subi o morro. Quando cheguei vi o Milton Chinelo em cima de um poste de madeira colocando uma antena feita com tela de galinheiro chamada Fundo de Cesto. O aparelho receptor estava montado em cima de um caixote grande. Enquanto montava meus equipamentos para fotografar observava que aparecia rapidamente uma imagem de um homem no vídeo. Todos os presentes vibravam de emoção e euforia: – Pega Geraldinho! Aproveita! Falavam.

Na foto da esquerda para direita: João de Paula Batista, professor Chico Reis,
Milton Chinelo, José Feital, Saul Pioto e Danilo Itatiba. 

O Fotógrafo da cidade

Ao longo de sua trajetória profissional, Geraldo fotografou frequentemente eventos sociais e acontecimentos importantes para a cidade, tanto por meio de trabalhos contratados quanto por iniciativa própria.

“Quando tinha esses eventos, por exemplo: Inauguração da agência, na época era o Bemge, o pai que fotografava. Abriu uma avenida nova na cidade, aí era o pai que fotografava. Inauguração da nova rodoviária, essas coisas todas, ele era convidado. Mas, muita coisa, ele ia também com vontade própria. Era uma coisa histórica, então ele ia fazer. “

– Sthéfano em conversa com o projeto Minas é Cinema, 2026

Geraldo tinha uma maneira muito criativa de fotografar. Em aniversários, casamentos e festas de 15 anos, costumava chegar cedo para fotografar o ambiente vazio. Utilizava papéis celofane coloridos sobre os flashes para criar efeitos de iluminação. Assim, conseguia criar diferentes tonalidades e efeitos diretamente durante a produção da fotografia. Também fazia montagens e efeitos especiais manualmente.

“Em determinada ocasião, fotografou a silhueta de uma menina e produziu uma imagem em que ela aparecia dentro de uma forma criada a partir da própria silhueta. Em outra situação, fotografou uma menina separadamente e depois montou a imagem como se ela estivesse entrando em uma festa de 15 anos. O resultado era tão bem feito que muitas pessoas não percebiam que se tratava de uma montagem. “

– Sthéfano em conversa com o projeto Minas é Cinema, 2026. 

Geraldo Mazzei

Os Bárbaros, o filme

A realização do filme “Os Bárbaros” em 1969, tem uma relação direta com a fundação do Mangueira ‘s Country Club. Geraldo Mazzei foi um dos sócios fundadores e membro do Conselho Deliberativo do clube. O filme, realizado em 16 mm, foi exibido em 25 de outubro de 1969, com acompanhamento do Cinejornal do desfile de 7 de setembro, provavelmente a contrapartida pelo patrocínio da prefeitura de Ubá. Segundo o jornalista Levindo Barros,  o filme contribuiria para divulgar e promover o novo clube. Geraldo atuou em diversas funções: produção, fotografia, direção e direção de arte.

 

“Como amante da sétima arte – o Cinema – e membro do recém- inaugurado Mangueiras Country Clube, Geraldo Mazzei encontrou como forma de divulgar o clube produzindo, dirigindo e filmando o filme “Os Bárbaros” (em 1969). Participaram deste projeto cultural, entre outros atores/atrizes: Rosália Stoduto (hoje residindo na Itália), Ricardo dos Santos, Corujão, Zé Rinaldi, Luiz Carlos Costa, Tunga, Dirceu Gomes, June Brandão, Rita do Juiz, Dr. José Teixeira Pires e grande elenco. A filmagem teve duração de 08 (oito) horas e o resultado final foi às telas do UTC, da Rádio Educadora e do Cinema local. Este filme projetou o Mangueiras Clube e a cidade de Ubá nos principais jornais e revistas da época, a exemplo do jornal Estado de Minas que publicou uma página sobre o filme e a cidade de Ubá. ” 

– Jornalista Levindo Barros, no projeto de Lei nº 032/05, que dispõe sobre a concessão da Comenda Ary Barroso a Geraldo Mazzei.  

 

As fotos originais do still do filme estão com o filho Sthéfano e foram colorizadas por Geraldo Mazzei de forma manual. 

O trabalho com a esposa

Geraldo se casou em 16 de novembro de 1974 com Janete do Carmo Mazzei. Ela trabalhava na empresa Wembley S/A, fundada em 1965 em Ubá (MG) por José Alencar Gomes da Silva. Mas, após se casar, passou a trabalhar com o marido no Estúdio Mazzei. Os dois trabalharam juntos desde então. Eles se tornaram parceiros na vida e no trabalho, Janete atuava como assistente de fotografia, organizava os equipamentos, auxiliava com a iluminação, montava os álbuns, criava cenários para as fotografias de móveis.

Nos álbuns de casamento, ela organiza a sequência do cerimonial: entrada dos padrinhos, entrada do noivo, entrada da noiva, cerimônia e demais momentos.

A fotografia de móveis e a criação de catálogos

A cidade de Ubá pertence ao maior Polo Moveleiro de Minas Gerais e Geraldo Mazzei trabalhou intensamente com fotografia de móveis. O processo era totalmente artesanal e exigia um domínio técnico de iluminação específico para a atividade.  Ele e Janete montavam cenários com sofás, tapetes, janelas e decoração. Criavam, assim, ambientes completos para fotografar os móveis. Janete atuava também na montagem das informações que seriam incluídas nas imagens. Eles utilizavam letras e decalques, que eram cuidadosamente posicionados. 

“Várias empresas, várias indústrias de imóveis de toda a região fotografavam com ele. E ele foi o primeiro a fazer isso. “

– Sthéfano em conversa com o projeto Minas é Cinema, 2026.

Fonte: Fotografia sem data digitalizada e cedida pelo filho de
Geraldo Mazzei, Stéphano Mazzei

O primeiro laboratório de fotografia colorida da região

Na década de 80, Geraldo montou em Ubá o primeiro laboratório de fotografia colorida da região. Até então, os filmes coloridos precisavam ser enviados para Belo Horizonte. O dinheiro para montar o laboratório veio de um prêmio de loteria. 

“O dinheiro veio de um bilhete premiado da loteria. Ele sonhou com o amigo falecido mostrando o número do túmulo. E ele não achava [o número] em Ubá, por acaso, minha mãe foi a Juiz de Fora, comprou [o bilhete] ali no Campeão das Loterias, que tinha na [Rua] Halfeld. Quando eu morei em Juiz de Fora, eu tinha que passar lá sempre pra comprar [um bilhete] que ele me pedia. E aí, ele ganhou esse prêmio e comprou o laboratório. Montou [o laboratório] e comprou um carro também na época.” 

– Yhorrana em conversa com o projeto Minas é Cinema, 2026. 

Paixão pela Restauração

Uma das suas grandes paixões era a restauração de fotografias. Quando alguém chegava com uma fotografia antiga, danificada ou manchada, ele fotografava a imagem, fazia uma nova ampliação e depois restaurava manualmente. Na época, esse processo era feito com tintas, como um pintor, em que retocava cuidadosamente cada fotografia.

“Você chegava com uma foto toda danificada, às vezes tamanho três por quatro. Você queria restaurar essa foto. Então, ele pegava essa foto, ele fotografava essa foto,  ia pra dentro da câmara escura, revelava essa foto e aí no outro cômodo do estúdio, tinha uma uma prancheta gigante que aí ele botava as fotos. Tinha um azulejo branco e ali colocava as tintas, igual o pintor faz, ele colocava as cores que queria e ia retocando minuciosamente cada foto. E hoje, a gente joga no photoshop, ou agora pede a IA para restaurar da maneira que desejarmos, mas naquela época era tudo manual.” 

– Sthéfano em conversa com o projeto Minas é Cinema, 2026.

Relação com Ary Barroso

Geraldo fotografou muitas vezes o compositor ubaense Ary Barroso. A filha de Ary Barroso, Mariúza Barroso, enviou diversas vezes recortes de jornais e fotografias para que ele restaurasse.

“Integrante do projeto cultural “Ary Mineiro” (que resultou em um show e gravação de CD pelas cantoras ubaenses Célia & Celma), foi montada no saguão do Ubá Tênis Clube ( no dia 13 de abril de 1997), uma exposição de fotos de Ary Barroso, fruto do minucioso trabalho de restauração do fotógrafo Geraldo Mazzei. […] Em novembro de 2002, Geraldo Mazzei foi convidado para abrir as comemorações do Ano do Centenário de Nascimento do Compositor Ary Barroso em Ubá, com uma exposição de fotos do compositor ubaense, no Ginásio São José, promovido pela Usina Cultural, da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho , sob o patrocínio da Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina. No campo cultural, o trabalho mais recente realizado pelo fotógrafo Geraldo Mazzei em nossa cidade foi a restauração, recuperação e ampliação de 28 fotos (30 cm x 40 cm , em cor sépia) que integram a exposição intitulada “Resgate e Difusão da Memória Ubaense através da Arte Fotográfica”, promovida pelo IMLOR – Instituto Maria de Loreto Camiloto Rocha – , em abril de 2005, através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.” 

– Jornalista Levindo Barros, no projeto de Lei nº 032/05, que dispõe sobre a concessão da Comenda Ary Barroso a Geraldo Mazzei

“A Mariusa, que era filha do Ary Barroso, tudo que tinha que ela achava do Ary Barroso, até por exemplo reportagens de jornal que estava amarelado que estava danificado, ela mandava pelos Correios para o pai, o pai restaurava e mandava pra ela no Rio de Janeiro. Então assim, o tempo que ela viveu, muita coisa do acervo do Ary Barroso ela mandou pro pai, inclusive no centenário do Ary Barroso, o pai que fez, que foi o responsável. “ 

– Sthéfano em entrevista ao projeto Minas é Cinema, em 2026.

Atuação no teatro

Participou da produção de peças de teatro, incluindo uma montagem de “Morte e Vida Severina”, em que atuou como iluminador cênico.

“Ainda no campo artístico, Geraldo Mazzei também divulgou Ubá atuando como iluminador de teatro, através da equipe de montagem da peça teatral “Morte e Vida Severina”, encenada pelo Grupo Reunião (na década de 60 – ano 1967), com o Grupo de Teatro do Cárcere Clube, sob a direção de Luiz Paulo. Esta montagem da peça “Morte e Vida Severina” percorreu diversas cidades da região, como Ouro Preto, Cataguases, Leopoldina e Juiz de Fora. “ – Jornalista Levindo Barros, no projeto de Lei nº 032/05, que dispõe sobre a concessão da Comenda Ary Barroso a Geraldo Mazzei

“Morte e Vida Severina” foi censurada pela ditadura, ele foi levado para a delegacia, ele não conta detalhes, acredito que tortura física não teve, mas psicológica muita, porque ele conta que depois, ele se sentia perseguido.” – Yhorrana  em conversa com o projeto Minas é Cinema, em 2026. 

Relação com Jornais

Geraldo também colaborou como fotógrafo em O Kanivete, Gazeta Regional, Folha do Povo e também em jornais maiores como O Globo, quando havia interesse em matérias relacionadas a Ubá ou a ilustres cidadãos ubaenses, como Ary Barroso, Nelson Ned, Mauro Mendonça, Antônio Olinto e Raul Soares. 

Maçonaria

Geraldo foi membro da Maçonaria na Loja Fraternidade Ubaense por mais de 25 anos. Segundo a família, mesmo quando estava doente e não conseguia dirigir, um amigo o levava para que pudesse participar. Ele nunca faltava às reuniões. Após sua morte, a loja maçônica passou a realizar uma homenagem anual a um membro que não tivesse nenhuma falta durante o ano, com o seu nome. 

A enchente de 1982 e a perda do acervo

Uma das maiores perdas da vida profissional de Geraldo ocorreu em uma enchente em Ubá, em 1982. A Rua São José foi muito atingida e a água chegou a aproximadamente um metro e meio de altura em alguns locais. Geraldo perdeu praticamente todo o acervo. Negativos, fotografias e outros materiais foram destruídos pela água e pela lama. Foi uma perda enorme, pois ele guardava negativos de praticamente tudo o que havia fotografado e filmado.

O fechamento do estúdio e o roubo de 2009

Geraldo Mazzei fotografou e filmou os principais momentos da vida dos seus filhos, como por exemplo, o aniversário de 15 anos da Yhorrana, registro que se perdeu na enchente de Ubá, em fevereiro de 2026. Ou ainda, o nascimento do Sthéfano em super 8. As imagens em super 8  eram exibidas em casa para toda a família. Geraldo ainda utilizava um equipamento de gravação de áudio separado. Todas as fitas eram cuidadosamente identificadas. Infelizmente, parte desse material se perdeu ou deteriorou, restando apenas o filme do nascimento de Sthéfano, que está sob sua guarda.

No final dos anos 1980, se desligou da sociedade com o irmão caçula do Foto Mazzei  na rua da Rua São José e ficou somente com o estúdio no bairro Eldorado, até quase falecer. Geraldo encerrou as atividades do estúdio por volta de 2008. Depois disso, manteve parte dos equipamentos e materiais em casa, com a intenção de doá-los para instituições. Entre eles: processadores, câmeras, flashes, estufas, equipamentos de laboratório e acessórios fotográficos. Em abril de 2009, a casa foi invadida e grande parte dos equipamentos foi roubado. Essa foi a segunda grande perda de seu acervo, após a enchente. Geraldo Mazzei faleceu em 03 novembro de 2010, aos 76 anos.  

Recentemente, por meio do projeto Minas é Cinema, o Centro Integrado de Preservação Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (CIPAv/UFJF) incorporou ao seu acervo um rolo de película 16mm e negativos fotográficos 6×6 cm de autoria de Geraldo Mazzei, depositados por seus herdeiros. Entre esse conjunto, destaca-se o filme Os Bárbaros, realizado em 1969, produzido e dirigido pelo fotógrafo. Esses são os únicos materiais de Geraldo Mazzei que sobreviveram à trágica enchente de 2026.

Ações de preservação

O conjunto de materiais foi depositado no CIPAV a partir de uma prospecção na casa da família de Geraldo Mazzei, em Ubá (MG). 

A pesquisadora Rafaella Pereira de Lima contou à coordenadora do CIPAv, Alessandra Brum, sobre a relação das várias gerações dos Mazzei com a fotografia e o cinema na zona da mata mineira, além da preocupação com o acervo iconográfico da família, atingido pela forte enchente que destruiu o centro de Ubá, no final de fevereiro de 2026. 

No dia 04 de abril, Alessandra, Rafaella e Vanessa Rodrigues foram a Ubá conversar com Yhorrana e a mãe, Janete Mazzei. Elas contaram que 1 rolo de película cinematográfica em bitola 16mm, 83 negativos, 2 fotografias e 2 cartelas emolduradas em vidro (além de algumas fotos colorizadas a mão que estavam em Belo Horizonte com o outro filho de Geraldo Mazzei) foram os únicos sobreviventes da enxurrada de fevereiro. Todo o restante dos materiais foi levado pela correnteza. Os remanescentes ainda existem por acaso: Yhorrana e o irmão haviam os tirado da casa de Janete, devastada pela enxurrada, há pouco tempo antes da trágica chuva. 

Na ida a Ubá, foi deixado um termo de depósito dos materiais com Yhorrana e a mãe, que ficaram de refletir melhor sobre a incorporação ou não deles ao acervo do CIPAv. Dias depois, elas assinaram o documento. Rafaella foi quem levou os itens de Ubá para as ações de preservação em Juiz de Fora, em 10 de abril de 2026.

Cronologia da trajetória de Geraldo Mazzei

1934
Nascimento
No dia 04 de julho de 1934, nasce Geraldo Mazzei, filho de Nathalina Casarin e Celidônio Mazzei.
1943
Primeiros contatos com a fotografia
Geraldo começa a frequentar o laboratório do pai. Observa o trabalho do tio Guerino Casarin e aprende os processos de revelação, impressão e retoque de fotografias.
1947/48
Primeiro emprego
Trabalha como office boy em uma loja, mas já auxilia o pai no Cine Foto Mazzei em alguns eventos.
1950
Mudança para Juiz de Fora
Se muda para Juiz de Fora, para trabalhar com o irmão mais velho, José (Zé) Mazzei, no Foto Mazzei.
1952
Primeiras experiências com filmagem
Ao retornar a Ubá para passar o Carnaval, recebe do pai uma câmera filmadora. Seu primeiro registro cinematográfico é o Carnaval do Ubá Tênis Clube.
1955
Início da carreira em Ubá
Geraldo passa a trabalhar com fotografia ao lado do pai, também se torna Diretor Social do Ubá Tênis Clube, participando da organização de carnavais, concursos de beleza e outros eventos.
1957
Faz iluminação na peça “Morte e Vida Severina”
A peça é apresentada em diversas cidades mineiras, como Ouro Preto, Cataguases, Leopoldina e Juiz de Fora. Durante o período da ditadura, a montagem é censurada e Geraldo vai parar na delegacia.
1959
Realização do Filme “Os Bárbaros”
Geraldo produz, roteiriza, dirige, filma e participa da direção de arte do filme “Os Bárbaros”, como parte das ações de fundação do Mangueira 's Country Club, do qual Geraldo fazia parte do conselho deliberativo.
Final da
déc.
de 1950
Chegada da televisão a Ubá
Geraldo registra a chegada das primeiras imagens de televisão à cidade, no dia 21 de abril de 1958 na Serra do Divino.
1960/70
Consolidação como “Fotógrafo da cidade”
Geraldo passa a registrar sistematicamente a vida de Ubá: inaugurações, obras públicas, eventos esportivos, acontecimentos culturais, visitas de personalidades, casamentos, aniversários e outros acontecimentos sociais. Também colaborava com jornais como O Kanivete, Gazeta Regional, Folha do Povo e veículos de maior circulação.
1974
Casamento com Janete do Carmo Mazzei
No dia 16 de novembro de 1974, Geraldo se casa com Janete do Carmo Mazzei. Ela se torna sua parceira profissional, auxiliando na fotografia, iluminação, montagem de álbuns e criação de cenários.
1980/90
Fotografia de móveis
Geraldo e Janete desenvolvem um importante trabalho de fotografia de móveis, acompanhando o crescimento do polo moveleiro de Ubá. Criam cenários completos e catálogos para diversas empresas da região.
1980
Morte de Celidônio Mazzei
Em 1980, falece o pai de Geraldo, Celidônio Mazzei, aos 92 anos.
1982
Enchente em Ubá - Primeira grande perda do acervo
Com uma grande enchente em Ubá, que atingiu a rua São José, Geraldo perdeu grande parte dos seus negativos, fotografias, filmes e outros materiais acumulados durante décadas.
Déc. 1980
Primeiro laboratório colorido da região
Geraldo monta em Ubá o primeiro laboratório de fotografia colorida da região, permitindo que filmes coloridos fossem revelados na cidade, sem a necessidade de enviá-los para Belo Horizonte, como era feito até então. O dinheiro para o investimento veio de um prêmio na loteria.
1997
Exposição sobre Ary Barroso
Participa do projeto cultural “Ary Mineiro” onde foi montada no saguão do Ubá Tênis Clube, no dia 13 de abril de 1997, uma exposição de fotos de Ary Barroso, fruto de um minucioso trabalho de restauração do fotógrafo. O projeto também resultou em um show e gravação de CD pelas cantoras e irmãs de Geraldo, Célia e Celma.
2003
Exposição no Centenário de Ary Barroso
Geraldo é convidado para abrir as comemorações do centenário de nascimento de Ary Barroso, realizando uma exposição de fotografias restauradas do compositor ubaense.
2005
Exposição “Resgate e Difusão da Memória Ubaense”
Geraldo restaura, recupera e amplia 28 fotografias para a exposição “Resgate e Difusão da Memória Ubaense através da Arte Fotográfica”.
2008
Encerramento das atividades do Estúdio
Geraldo encerra suas atividades profissionais do estúdio, mantendo em casa parte de seus equipamentos e materiais, com a intenção de futuramente doá-los a instituições.
2009
Roubo de Equipamentos
A casa de Geraldo e Janete é invadida e grande parte dos equipamentos fotográficos que ainda conservava é roubada. Este acontecimento representa uma segunda grande perda depois da enchente de 1982.
2010
Falecimento
No dia 03 de novembro de 2010, falece Geraldo Mazzei, aos 76 anos.
2026
Enchente em Ubá e depósito de arquivos no CIPAV
Em fevereiro de 2026, a cidade de Ubá passa por uma enchente histórica e de dimensão nunca antes vista na cidade. A casa de Janete foi tomada pela água e quase todo acervo fotográfico da família se perdeu. Este acontecimento representa uma terceira grande perda para a família de Geraldo Mazzei. Em abril, a filha Yhorrana deposita no CIPAv os arquivos de Geraldo que sobreviveram à tragédia provocada pela chuva: um rolo de película cinematográfica em bitola 16mm colorida, 83 negativos fotográficos, duas fotografias e duas cartelas pintadas a mão e emolduradas em vidro.

Referências:

 

CIDADE DE UBÁ. Ubá, 1937-1969. Disponível em: https://www.uba.mg.gov.br/detalhe-da-materia/info/acervo-de-jornais/268512. Acesso em: 14 set.2006.

 

GAZETA REGIONAL. Ubá, nº 67, 03 ago. 2002. 

 

BARROS, Levindo. Geraldo Mazzei: 52 anos trabalhando com a arte fotográfica em Ubá e região. 2005. Texto elaborado para homenagem a Geraldo Mazzei por ocasião do recebimento da Comenda Ary Barroso, Câmara Municipal de Ubá, maio de 2005.

 

MAZZEI, Sthéfano. Depoimento de Sthéfano Mazzei. Conversa concedida ao projeto Minas é Cinema. Juiz de Fora, 13 jun. 2026. Conversa realizada por videoconferência.

 

MAZZEI, Geraldo. Fatos sem fotos. [s. d.]. Texto não publicado. Enviado por Yhorrana Mazzei.

 

Projeto de Lei nº032/05. Dispõe sobre a concessão da Comenda Ary Barroso ao Senhor Geraldo Mazzei. Ubá: Câmara Municipal, 2005. 

 

UBÁ (MG). Câmara Municipal. Lei nº 3.456, de 20 de Maio de 2005. Dispõe sobre a concessão da Comenda Ary Barroso ao Senhor Geraldo Mazzei. Ubá: Câmara Municipal, 2005.